03/01/18

GUIDA MARIA


Foi com enorme pesar e estupefacção que recebemos a notícia deste último acto da vida de uma grande actriz, Guida Maria, com quem nós, CTB, tivemos o prazer de trabalhar em diversas ocasiões.

Uma perda para familiares e amigos, com quem nós nos solidarizamos neste momento. Mas é, também, uma perda de todos, porque como Clarice Lispector nos disse: “Meu mundo é feito de pessoas que são as minhas – e eu não posso perdê-las sem me perder.”


Dos trabalhos que a Guida Maria fez com a CTB destacamos Antes da Reforma (1999), de Thomas Bernard, e Algumas Polaroids Explícitas (2003), de Mark Ravenhill.

No próximo dia 9 de Janeiro, antes da estreia de Imprudência, no Theatro Circo, faremos uma pequena homenagem a esta grande actriz.

21/12/17

A quadratura do círculo e a importância da Performart

Passada que está esta difícil fase do processo de Candidatura aos apoios “ditos” sustentados e, embora consideremos este processo longe do fim (e bem capaz de provocar ainda múltiplas surpresas), o tempo exige-nos que, no mesmo passo que nos preparamos para aquelas, devamos iniciar uma reflexão, mais aprofundada possível, sobre o futuro. A Ana Cristina sugeriu-me que alinhavasse um texto a partir da minha intervenção na última assembleia. Confesso que a responsabilidade me tolheu, dada a enorme complexidade em que, a meu ver, estamos enredados. Assim, partindo da minha análise pessoal sobre “este tempo” proponho-me elencar alguns pontos que considero basilares, para a reflexão partilhada sobre uma política de apoio à criação artística ao “chamado 3º sector”.

Tenho consciência que a Performart é uma associação de estruturas muito diversificadas quanto a projectos, meios e fins; modelos de gestão e de financiamento, recursos humanos, etc. Essa diversidade e riqueza pode/deve ser entendida como a sua primeira grande qualidade, residindo aí o caracter perfeitamente inovador da mesma, no nosso panorama. Significa que o que conseguirmos assumir e consensualizar, enquanto associação, estará em melhor condição de ser afirmada e defendida.

Passo então aos pontos, valendo-me do tema da reunião: análise do Grupo de Trabalho, sobre o "Novo Modelo de Apoio às Artes" para, uma vez terminada a fase de candidaturas, fazer a avaliação dos Avisos de Abertura para os Programas de Apoio Sustentado às Artes (nomeadamente no que se refere aos montantes disponíveis para o setor e às condições de acesso aos patamares de apoio) e do formulário de candidatura.

A montante temos que:
1.O Estado não assume a sua função de regulador (ensino artístico; estatuto profissional, definição de serviço público) nem produz um quadro de políticas sectoriais, que a partir do território, definam uma perspectiva estruturante para uma política de Cultura (e de Criação) para o país.

2. O Estado fala do terceiro sector como sendo aquele com quem contrata “serviço público”, a estruturas/empresas que, pela sua posição no terreno, estão mais próximas do cidadão. Mas isso acontece, porque o Estado se demitiu de assumir e aumentar o setor público na área da criação artística. E mesmo que o assumisse teria sempre de “contratualizar”.

3. Essa falha, associada a outras, como o subfinanciamento, em razão de uma objectiva e sistemática negação em reconhecer o custo da coisa “artes de palco”, está na origem da situação de precariedade endémica do sector.

4. O Estado não resolveu e, talvez não esteja interessado em resolver, o verdadeiro nó górdio da actividade de programação cultural no país: O Estado financiou equipamentos plasmados no todo nacional. O Estado comparticipa no financiamento à criação artística, no todo nacional. Mas não regula e não cria condições para a circulação dessa criação naqueles equipamentos. Como resolver isto? Com que modelo de intervenção?  Devemos pensar nisto sem preconceito. Trata-se de preservar a cultura nacional. Os resultados do INE sobre a “importação cultural” e os custos associados, são claros. E deviam fazer corar os nossos responsáveis quando falam de internacionalização da cultura portuguesa, como um objectivo a que temos de dizer SIM.

5. A manutenção reiterada de um discurso político, perverso, em que se confundem os objectivos a atingir com desejos de os alcançar. Se baralham conceitos e montantes, afirmação de processos de auscultação muito democráticos e resultados sustentados em subjectividade, conduzem inexoravelmente à situação que vivemos hoje.
Pelas minhas contas, tendo presente e comparando o ano anterior, não há mais dinheiro neste concurso para o teatro. Em 2017, tivemos cerca de 11.350.000€ para 88 projectos. E agora teremos cerca de 12 milhões, não sabemos para quantos projectos. Se tivermos em conta mais Açores. Madeira, Artes de Rua, Circo… (que aliás devem ser apoiados). Se entendermos o que quer dizer a cativação (730.000€), no primeiro ano, de que se fala no Aviso de Abertura do Concurso…

6. Urge analisar bem o discurso político que sustentou esta situação concursal, os objectivos definidos no projecto lei, no decreto e no Aviso de Abertura e, compará-los com a realidade dos montantes efectivos, com o que nos foi exigido em sede de preenchimento de formulário e a realidade das estruturas.

E, digamos, a jusante temos então:
1. Um formulário que se nos apresenta na crueza do seu preenchimento, como exemplo despudorado do que já sabíamos: Os responsáveis políticos pela área da Cultura querem verdadeiramente acabar com as estruturas que dizem querer apoiar, criando condições para um melhor desempenho junto dos públicos e, uma melhor performance artística e de gestão. O formulário trata as estruturas como projectos pontuais. E esta questão é estruturante. O Estado vê o sector com os olhos do Programador. Vê e analisa cada actividade, como um caso, um projecto. Para eles, um projecto a 4 anos é apenas um conjunto numérico de actividades pontuais. Nada existe no formulário que assuma um projecto global, estratégico, estruturado e pensado, num tempo, (antes e depois do concurso), chegando mesmo à aberração de exigir a cada actividade um plano de comunicação e marketing específico, não criando espaço para a explanação de um plano global e estratégico. A DGArtes não possui Centro de Documentação, nem as pessoas que compõem o Júri, são obrigadas (mas deviam) a conhecer as estruturas. Ora, se não existe no formulário nada para lá da exigência de “redacções argumentativas”…

2. O formulário trata as estruturas como projectos pontuais quando não permite que uma qualquer estrutura possa ter nos seus recursos humanos mais pessoas do que eles intuíram. Constata-se (no caso da CTB) ao preencher o formulário que, para sermos exactamente sérios e objectivos, teríamos de despedir 8 pessoas com contrato e na segurança social. De outro modo não estaríamos em condições de admissibilidade, já que não cumpríamos os tais 50% do montante solicitado para custos de estrutura. Quer isto dizer, que a DGArTes, não entendeu que uma companhia pode ter outros financiamentos, e que uma coisa é o montante solicitado ao Ministério, para contratualizar e outra coisa é o orçamento da estrutura.

3. Esta questão é importante, já que o Estado pensa que resolve o combate à precariedade com 3 pessoas. E não exige mais, porque sabe quanto custa a criação artística e não a quer financiar, quer isso sim, subfinanciar. O Estado não está a contratualizar serviço público. O Estado está a esmifrar os artistas e as estruturas e a obriga-los a cumprir desígnios que o Estado não está disposto a garantir directamente, porque sabe que lhe custa mais caro.

Por fim, proponho que levemos a cabo, internamente um estudo rápido sobre a Performart, isto é, sobre o seu universo: quantos somos? quem somos, que vínculo temos com cada estrutura, anos de profissão?, sei lá…. esse conhecimento, parece-me, ajudará muito a uma reflexão aprofundada.

Ver também:


Rui Madeira

23/11/17

Projecção da reportagem "Operación Dulcinea" na Shairart no âmbito do projecto BragaCult

No dia 27 de Novembro, às 21h30, na galeria Shairart a Companhia de Teatro de Braga – através do seu projecto de formação de públicos de teatro BragaCult – fará a apresentação da reportagem, “Operacion Dulcinea”.

Luís Menéndez
José Manuel Mendes
A reportagem foi realizada para a TV Galiza, em 1995, e conta a história do sequestro do paquete Santa Maria, em Janeiro de 1961, através do relato de alguns dos envolvidos e de algumas imagens inéditas do assalto.

A par da projecção da reportagem, o evento contará com a presença do autor, Luís Menéndez, e com José Manuel Mendes (professor da Universidade do Minho) que nos dará uma perspectiva portuguesa sobre os acontecimentos do início da década de 1960.


Este evento insere-se e complementa a apresentação pública da Oficina de Leituras Encenadas do livro “Mar Revolto”, de Roberto Vidal Bolaño, que constrói a peça centrada no olhar dos mais humildes, os passageiros dum camarote de terceira classe do navio Santa Maria.

A oficina dirigida pelo dramaturgo e encenador Manuel Guede Oliva teve a participação de cerca de 30 participantes. Nos dias 28, 29 e 30 de Novembro haverá apresentações públicas, de entrada livre, na Antiga Estação de Braga, às 19h. 

Navio rebaptizado de Santa Liberdade pelo comando do DRIL

22/11/17

Projecto BragaCult apresenta Leitura Encenada de "Mar Revolto" de Vidal Bolaño

Está a decorrer a Oficina de Leituras Encenadas sob a direcção do autor, tradutor e director de teatro Manuel Guede Oliva, realizada no âmbito do projecto de formação de públicos de teatro da Companhia de Teatro de Braga, BragaCult, que teve a participação de cerca de 30 pessoas.

Manuel Guede Oliva
Deste trabalho resultarão três apresentações públicas, na Antiga Estação Ferroviária de Braga, nos dias 28, 29 e 30, às 19h00. As sessões tem entrada livre.

Esta oficina desenvolve-se a partir do texto de Roberto Vidal Bolaño, Mar Revolto. O texto do dramaturgo galego inspira-se no sequestro do transatlântico “Santa Maria“ em Janeiro de 1961.

Roberto Vidal Bolaño, autor de "Mar Revolto"
No “Santa Maria“ cruzaram-se, durante a travessia, um punhado de homens libertários. Bastaram uma dúzia de portugueses e outros tantos espanhóis, a maioria galegos – todos membros do Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL) – para sequestrar um barco que viajava da Venezuela para Lisboa e Vigo com quase um milhar de pessoas a bordo.

Os revolucionários exigiam a amnistia dos presos políticos, o fim das ditaduras de Franco e de Salazar e pôr em marcha uma Confederação de Povos Ibéricos. Mantiveram o sequestro do navio, com 650 passageiros, durante 12 dias e rebaptizaram-no de “Santa Liberdade“.

O “Santa Maria“ era uma das jóias da navegação civil portuguesa.
A partir deste acontecimento histórico Roberto Vidal Bolaño constrói uma peça centrada na perspectiva dos mais humildes, os passageiros dum camarote de terceira classe.

No dia 27 de Novembro, será visionado, na Shairart (Galeria Novos Emergentes da DST), o documentário “Operacion Dulcinea” realizado para a TV Galiza por Luis Menendez. A sessão realiza-se às 21h30 e contará com a presença de algumas personalidades que darão a perspectiva portuguesa do sequestro do transatlântico.


16/11/17

A CTB apresenta "As Criadas" no Festival de Teatro de Viana do Castelo

Amanhã, dia 17, a Companhia de Teatro de Braga (CTB) apresenta AS CRIADAS, de Jean Genet, no Teatro Municipal Sá de Miranda, em Viana do Castelo.

Exactamente um ano após a primeira apresentação pública – antestreia a 17 de Novembro de 2016 – no Theatro Circo, o espectáculo encenado por Rui Madeira (numa co-produção com a Seiva Trupe, do Porto) vai a cena, na sala vianense, no âmbito do 1º Festival de Teatro de Viana do Castelo, organizado pela companhia de Teatro do Noroeste e que decorre até 18 deste mês.

AS CRIADAS de Genet encerraram o ciclo Liberdade e Solidão, a que nos obrigamos desde 2013, no ano exacto em que perfez 30 anos da morte do dramaturgo francês. Jean Genet que abordado sobre o problema do tempo, respondeu como Santo Agostinho: “Espero a Morte”.

A 130ª produção da CTB fez até ao momento, 20 representações em 11 cidades portuguesas e espanholas (Braga, Barcelos, Porto, Évora, Badajoz, Cáceres, Almada, Faro, Sevilha, Saragoça e Covilhã).

SOBRE O AUTOR
“Genet é a obscenidade que segue a par com a nobreza, o execrável e o sublime. Nascido de pai incógnito e logo abandonado pela mãe num asilo da Assistência Pública, será nele – órfão com vida apenas vivida em cenários de casas de correcção, prisões e espeluncas – que o séc. XX encontrará um místico entre os que tem de maior estatura. Um anjo que transporta a ferocidade em pleno rosto. O seu sonho permanente era “reabilitar” a miséria humana, onde ele próprio, Genet, se encontrava.” (Yukio Mishima)

Clara Lemercier (Sílvia Brito) e Solange Lemercier (Solange Sá), as irmãs homicidas de As Criadas

SOBRE O ESPECTÁCULO
Genetialidade
Como numa matrioska o texto dentro do texto dentro do testo, como numa história que se repete sem fim como duas irmãs devotas e humildes como numa cebola que se descasca como numa vida que se vive como o prazer de um serial killer como duas criadas que vestem gestos da patroa como que adrenalina que se experimenta como duas irmãs que treinam o ódio para atingir o indizível como numa aliança de sangue como num terço que se reza sem fim como que em voz baixa como duas irmãs curvadas como o cuspo que nos sai da boca como o escarro que se engole e nos aperta a goela como se vive a Liberdade como o suor duma penetração anal como um ranger de dentes num silêncio de gelo como um pedaço de carne que sai quente do forno e como entra à força na boca do corpo como se maquilha a Solidão como dois corpos se combatem como duas bocas se abrem como duas bocas se fecham como o tempo do silêncio como quando nada se escuta como a palavra: AMOR!
Rui Madeira
Ficha artística
autor Jean Genet | tradução Eduardo Tolentino de Araújo e Rui Madeira | dramaturgia e encenação Rui Madeira| cenografia Acácio de Carvalho | figurinos Manuela Bronze | desenho de luz Nilton Teixeira | design gráfico Carlos Sampaio | fotografia Paulo Nogueira | assistente de encenação Eduarda Filipa|interpretação Sílvia Brito, Solange Sá e Mariana Reis

co-produção Companhia de Teatro de Braga / Seiva Trupe – Teatro vivo